Falta de motorista no Brasil: 88% das transportadoras sofrem
A escassez de motoristas no transporte rodoviário de cargas deixou de ser um problema pontual e se consolidou como uma limitação estrutural do setor. Uma pesquisa da NTC&Logística, realizada em 2025 e divulgada no início de 2026, aponta que 88% das empresas do TRC relatam dificuldade na contratação de motoristas e agregados.
Entre as transportadoras que afirmaram ter veículos parados por falta de condutores, a média é de 8 caminhões ociosos por empresa. O dado coloca a escassez de motoristas como a segunda maior limitação ao crescimento do setor, apontada por 28,1% dos entrevistados — atrás apenas da piora do cenário econômico interno (40,7%) e à frente das dificuldades de acesso ao capital (17%).
O cenário não é novo, mas se agravou. O envelhecimento da categoria, a concorrência com outros setores que disputam o mesmo perfil de profissional e as condições da profissão (jornadas longas, tempo fora de casa, desgaste físico) tornam cada vez mais difícil atrair novos motoristas. Outro recorte ajuda a dimensionar a renovação: mais de 71% dos motoristas estão na faixa de 41 a 70 anos, enquanto menos de 5% dos habilitados têm 30 anos ou menos.
Soma-se a isso o impacto das regras de jornada, espera e descanso. A Lei 13.103/2015 determina que o motorista profissional deve respeitar as normas relativas ao tempo de direção e de descanso e estabelece jornada diária de trabalho de 8 horas. Também considera tempo de espera as horas em que o motorista empregado fica aguardando carga ou descarga. Além disso, a discussão judicial sobre espera e descanso pode ser conferida no processo oficial da ADI 5322 no STF, citado no debate setorial sobre disponibilidade da frota. Na prática, quando a operação depende de mais horas disponíveis por veículo, a escala precisa ser organizada com cuidado para não transformar gargalo de mão de obra em risco trabalhista e operacional.
O custo da frota parada
O efeito na operação é direto: caminhão parado por falta de motorista é frete que não acontece, cliente que não é atendido e receita que não entra. Para uma transportadora com 8 caminhões ociosos, o prejuízo da ociosidade se acumula diariamente em custos mensais do caminhão (financiamento, seguro, depreciação) sem nenhuma receita para compensá-los.
É um problema que pressiona a rentabilidade sem que a empresa tenha feito nada de errado na gestão, simplesmente não há quem dirija. Como motoristas representam 19,5% dos custos operacionais do TRC, a falta de profissionais afeta ao mesmo tempo a capacidade de faturar e a composição de custos da operação.
Esse cenário já se reflete na disposição de investir. Segundo a pesquisa, 61,2% das empresas não adquiriram veículos nos últimos 12 meses e, para 2026, 61,5% não pretendem renovar a frota.
Margem apertada para competir por profissionais
Em paralelo, outros fatores pressionaram a rentabilidade em 2025 e reduziram a margem de manobra das transportadoras para competir por profissionais: novos custos com seguros, porque a Lei 14.599/23 exige coberturas securitárias para embarques realizados por transportadores, o fim da leniência na fiscalização do piso mínimo de frete e uma alta acumulada de 13,42% no custo com mão de obra nos últimos 24 meses.
Com o frete efetivamente recebido defasado em média 10,1% em relação aos custos calculados pela NTC, sobra pouco espaço para melhorar remuneração e condições, justamente o que seria necessário para reter e atrair motoristas. A dificuldade fica maior quando a transportadora precisa manter escala, cobrir ausências, respeitar descanso e ainda disputar profissionais com outras atividades que exigem perfil semelhante.
A contrapartida mais expressiva aparece no treinamento: 92,6% das empresas planejam investir em capacitação como estratégia para enfrentar a escassez. Se trazer gente nova está difícil, qualificar e reter quem já está na operação vira prioridade. Para a frota, isso significa tratar capacitação, acompanhamento de desempenho, previsibilidade de escala e condições de trabalho como parte da estratégia de disponibilidade, não como ações isoladas de recursos humanos.
Perspectiva para 2026
Para 2026, a expectativa do setor é cautelosa: 57% das empresas projetam estabilidade, 29,6% estimam piora e apenas 13,3% esperam melhora. Com a segunda fase da reoneração da folha de pagamento, prevista para aplicar 60% das alíquotas em 2026, e a Selic em patamares elevados, o custo de manter e contratar motoristas segue subindo, enquanto a oferta de profissionais não dá sinais de recuperação.
Nesse momento, esperar o mercado normalizar é aceitar operar com frota ociosa por tempo indeterminado. As empresas que estão se movimentando e investindo em um controle de motoristas que considera capacitação, melhoria de condições, organização de escala e retenção como prioridades estratégicas são as que têm mais chance de manter a operação rodando enquanto o setor como um todo ainda busca resposta para esse problema.
Quer acompanhar conteúdos como este e outras análises sobre custos e desafios no transporte de cargas? Assine a newsletter da Prolog.
Perguntas frequentes
Por que falta motorista de caminhão no Brasil?
Quantas transportadoras têm dificuldade para contratar motoristas?
Quanto custa um caminhão parado por falta de motorista?
O que as transportadoras estão fazendo contra a escassez de motoristas?
Qual a perspectiva para a falta de motoristas em 2026?
// newsletter
Conteúdo de gestão de frotas, direto no seu e-mail
Artigos sobre pneus, manutenção e operação de frotas. Sem spam.

